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Hora da Poesia

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Poesia sim...

A busca A busca,  aquela procura incansável, do que nos identifica, fortifica, destrói. somos genética e o que o mundo faz de nós. Somos promessa e vontade de conquistar. Somos derrota somos luz e escuridão, amor e paixão ódio e desilusão. Somos promessas, tantas! Somos atitude e passividade, dor e felicidade! Somos carinho e um abraço apertadinho. Somos indiferença e descrença! Somos promessas, tantas! Somos um "ser" da natureza que se constrói sedento de tudo, de nada, da verdade, da mentira. Que procura incansável o seu "EU" no materialismo, no espiritual, na beleza corporal, dos sentidos, dos momentos vividos! Somos raça e cor, somos do mundo que acolhe com ou sem valor! Somos fado e vontade... Somos busca... Incansável! Rosa Cândida

Poesia sim...

Acordar tarde   tocas as flores murchas que alguém te ofereceu quando o rio parou de correr e a noite foi tão luminosa quanto a mota que falhou a curva - e o serviço postal não funcionou no dia seguinte procuras ávido aquilo que o mar não devorou e passas a língua na cola dos selos lambidos por assassinos - e a tua mão segurando a faca cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado dos amantes ocasionais - nada a fazer irás sozinho vida dentro os braços estendidos como se entrasses na água o corpo num arco de pedra tenso simulando a casa onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia Al Berto,  Horto de Incêndio  

Poesia sim...

Poema Quotidiano É tão depressa noite neste bairro  Nenhum outro porém senhor administrador  goza de tão eficiente serviço de sol  Ainda não há muito ele parecia  domiciliado e residente ao fim da rua  O senhor não calcula todo o dia  que festa de luz proporcionou a todos  Nunca vi e já tenho os meus anos  lavar a gente as mãos no sol como hoje  Donas de casa vieram encher de sol  cântaros alguidares e mais vasos domésticos  Nunca em tantos pés  assim humildemente brilhou  Orientou diz-se até os olhos das crianças  para a escola e pôs reflexos novos  nas míseras vidraças lá do fundo  Há quem diga que o sol foi longe demais  Algum dos pobres desta freguesia  apanhou-o na faca misturou-o no pão  Chegaram a tratá-lo por vizinho  Por este andar... Foi uma autêntica loucura  O astro-rei tornado acessível a todos  ele que ninguém habitualmente saudava  Sempre o mesmo indifer...

Poesia sim...

Os Antigos Os antigos invocavam as Musas.  Nós invocamo-nos a nós mesmos.  Não sei se as Musas apareciam —  Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação. —  Mas sei que nós não aparecemos.  Quantas vezes me tenho debruçado  Sobre o poço que me suponho  E balido "Ah!" para ouvir um eco,  E não tenho ouvido mais que o visto —  O vago alvor escuro com que a água resplandece  Lá na inutilidade do fundo...  Nenhum eco para mim...  Só vagamente uma cara,  Que deve ser a minha, por não poder ser de outro.  E uma coisa quase invisível,  Exceto como luminosamente vejo  Lá no fundo...  No silêncio e na luz falsa do fundo...  Que Musa!...  Álvaro de Campos, in "Poemas"  Heterónimo de Fernando Pessoa

Poesia sim...

Floreça, fale, cante, ouça-se e viva A portuguesa língua, e já, onde for, Senhora vá de si, soberba e altiva. Se tèqui esteve baixa e sem louvor, Culpa é dos que a mal exercitaram, Esquecimento nosso e desamor. Mas tu farás que os que a mal julgaram E inda as estranhas línguas mais desejam Confessem cedo, ant’ela, quanto erraram. E os que depois de nós vierem vejam Quanto se trabalhou por seu proveito, Porque eles pera os outros assi sejam. António Ferreira,  Poemas Lusitanos,  notícia histórica e literária, selecção e anotações de F. Costa Marques, Coimbra, Atlântida, 1961, pp. 97-98 Texto (adaptado) de Maria Helena da Rocha Pereira, "Elogios da Língua Portuguesa", in  Máthesis 15,2006 257-27

Poesia sim...

Quanto Sinto, Penso Severo narro. Quanto sinto, penso.  Palavras são idéias.  Múrmuro, o rio passa, e o que não passa,  Que é nosso, não do rio.  Assim quisesse o verso: meu e alheio  E por mim mesmo lido.  Ricardo Reis, in "Odes"   Heterónimo de Fernando Pessoa

Quando vier a Primavera...

Quando Vier a Primavera Quando vier a Primavera,  Se eu já estiver morto,  As flores florirão da mesma maneira  E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.  A realidade não precisa de mim.  Sinto uma alegria enorme  Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma  Se soubesse que amanhã morria  E a Primavera era depois de amanhã,  Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.  Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?  Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;  E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.  Por isso, se morrer agora, morro contente,  Porque tudo é real e tudo está certo.  Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.  Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.  Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.  O que for, quando for, é que será o que é.  ...

Poesia sim...

Com Fúria e Raiva Com fúria e raiva acuso o demagogo  E o seu capitalismo das palavras  Pois é preciso saber que a palavra é sagrada  Que de longe muito longe um povo a trouxe  E nela pôs sua alma confiada  De longe muito longe desde o início  O homem soube de si pela palavra  E nomeou a pedra a flor a água  E tudo emergiu porque ele disse  Com fúria e raiva acuso o demagogo  Que se promove à sombra da palavra  E da palavra faz poder e jogo  E transforma as palavras em moeda  Como se fez com o trigo e com a terra  Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"