Dórdio Guimarães 1938-1997

Dórdio Leal Guimarães (Porto, 1938-1997, Lisboa), poeta, jornalista, ficcionista, realizador e argumentista de cinema e de televisão, editor e administrador de organismos culturais, dedicou a maior parte da sua vida à sua mulher, a escritora Natália Correia, companheira e musa de toda a sua produção artística e literária. Da sua filmografia (que reúne duas centenas de títulos, excluindo aquela em que colaborou com seu pai, o realizador Manuel Guimarães), saliente-se a longa-metragem "Santo Antero", uma homenagem a Antero de Quental, 1979 e o telefilme "Soror Saudade", uma evocação de Florbela Espanca, 1983. Da sua bibliografia, realce para o "Tempo Imediato", com que se estreou como poeta em 1961, o romance "Alexandre Nevsky", 1972, os volumes "Paicina", 1976, e "Maicina", 1991 (de poesia e prosa) e "Única", editado na Madeira, o seu último livro, novamente escrito para a sua amada Natália (a sua "Cynthia até ao Fim do Mundo"), 1995.
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ÚNICA
p
Em toda a vida foste sempre ilha,
nas hortênsias de teus olhos, nas camélias
dos teus lábios, nas garças das tuas mãos,
tinhas a pele das manhãs luminosas
p
e difíceis, das brumas das pastagens
e das lagoas meditativas, das furnas
escaldantes e nervosas, o dom desse nó
umbilical que vem da mãe circulatória.
p
A tua história, de águas rumorosas,
nasce e nunca nasce, parte e em nunca
se reparte, é um fruto, um peixe, uma missiva,
uma gruta viva cheia de revérberos
p
da saudade lumidária e viajante que se compraz
em outra ilha, estrela intacta de som,
rodeada de universos por todos os lados,
pulsando nos perfis do tempo, coração que chora
a frátria luz.
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(in "Única", posfácio, notas e direcçãode José António Gonçalves,Colecção "Memória das Palavras", 1,Editorial Correio da Madeira, 1995)

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